Muitas mulheres sonham em ter um parto em casa. Mas e aí, do sonho até a concretização, como funciona? Quem pode ter um parto em casa? Quais critérios você deve levar em consideração? E o principal: o parto domiciliar é seguro pra você e pro seu bebê?

Por que planejar um parto em casa?

Parto em casa, com apoio de toda a família (via flickr)
Parto em casa, com apoio de toda a família (via flickr)

Algumas mulheres podem se sentir mais seguras estando em um ambiente familiar e acolhedor. Outras, podem se sentir mais seguras estando perto de todos os recursos tecnológicos que um hospital pode oferecer (independente de vir a utilizá-los ou não).

Qual o local mais indicado? Se a gestante não tiver fator de risco aumentado, aquele em que ela se sentir mais segura.

Alguns dos fatores que fazem com que seja possível que a mulher opte por um parto normal¹, porém não seja seguro planejar um parto em casa² são:

  • Parto prematuro
  • Parto induzido
  • Gestação de gêmeos
  • Pressão alta
  • Diabetes
  • Uso de anti-depressivos
  • Mais de 2 cesáreas anteriores
  • Bebê pélvico (bebê sentado)
  • Confirmação ou suspeita de Covid-19 no momento do parto ou se teve Covid-19 durante a gestação (trecho incluído em dez/2020)

Se a gestante teve um pré-natal adequado e não foram identificados fatores de risco na gestação, ela pode escolher ter um parto em casa. Uma equipe de parteiras capacitada e responsável saberá te orientar sobre as contra indicações para ter um parto em casa 😉

A equipe que irá atender seu parto domiciliar poderá contar com parteiras modernas, como as enfermeiras obstetras ou obstetrizes.

Parto domiciliar na série “Call the midwife” (via youtube)
Parto domiciliar na série “Call the midwife” (via youtube)

Das contra indicações listadas acima, a única que pode vir a ocorrer sem que tenha sido identificada antes é o bebê pélvico. Isso pode acontecer porque até o finalzinho da gestação seu bebê ainda pode mudar de posição. Porém ainda assim saiba que isso é bem raro: somente 3 a 4% dos bebês chegam a termo pélvicos³.

Após o início do trabalho de parto, quando o bebê já está encaixado e descendo pela pelve da mãe, isso é ainda mais raro, pois ele já não tem mais tanto espaço disponível para mudar de posição. Se isso ocorrer, a equipe responsável deverá avaliar a posição do bebê e, sempre que possível, transferir a mulher para um hospital⁴. Como nem sempre há tempo hábil para isso (pode ocorrer caso o parto evolua muito rápido e a equipe chegue à sua casa já com o bebê quase nascendo), é essencial que você escolha uma boa equipe, treinada, capacitada e responsável, capaz de prestar a melhor assistência a você e ao seu bebê.

Como escolher sua equipe?

Algumas questões essenciais a serem debatidas com a equipe que irá atender seu parto domiciliar são⁵:

  • Experiência com partos e, mais especificamente, com partos domiciliares
  • Experiência em atender partos vaginais pélvicos
  • Treinamento e atualizações em emergências obstétricas
  • Treinamento e atualizações em reanimação neonatal

Você pode ver aqui mais dicas para escolher sua equipe.

O parto em casa é seguro?

O parto em casa também é conhecido como parto domiciliar (PD) ou parto domiciliar planejado (PDP). Esse nome se dá porque ele é diferente do parto domiciliar não planejado ou acidental, que é o que ocorre quando a gestante planejou ter seu bebê em outro local, como hospital ou casa de parto, mas por algum motivo não chegou a tempo.

Diversos estudos comprovaram que, no caso de gestantes de baixo risco, não há diferença significativa entre o local escolhido para o parto, tanto no que diz respeito à segurança da mãe quanto à do bebê⁶. Contudo, tais estudos foram realizados em países onde o parto domiciliar tem apoio do sistema de saúde, como transporte rápido em caso de emergências e pré-natal de qualidade. Por isso no Brasil é recomendado que partos domiciliares sejam planejados somente em locais que, mesmo com trânsito, fiquem a no máximo 20 minutos de distância da maternidade mais próxima, e que essa seja uma maternidade “porta aberta”, ou seja, preferencialmente pública devido à maior agilidade no atendimento, e com plantonistas prontos para atendimento 24h.

O que acontece em caso de emergência?

Ao ter um bom acompanhamento pré-natal, a maioria dos fatores de risco é identificado com bastante antecedência, de forma que restam poucas “surpresas”. Em caso de qualquer contraindicação ao PD, sua equipe de parteiras irá te orientar e te prover todo o cuidado adequado para que você siga seu pré-natal e tenha seu parto com acompanhamento da equipe médica, podendo manter também o acompanhamento complementar da equipe de parteiras, caso assim deseje.

Cabe ressaltar que a maioria das transferências de casa para o hospital ocorrem a pedido da gestante, quando desejam se utilizar de alguma forma medicamentosa de alívio da dor (analgesia), sendo pouquíssimas as ocorrências de emergência⁷. Para as raras eventualidades que ainda podem ocorrer sem que tenham sido previstas no pré-natal, as equipes devem contar com treinamento frequente e material necessário para atendimento de emergência, como medicamentos anti-hemorrágicos, cilindro de oxigênio e reanimador (ambu).

Afinal, qual o melhor lugar para parir?

Apesar de toda a estrutura médica, os partos hospitalares por sua vez apresentam alguns outros riscos, como por exemplo infecção hospitalar e maior número de intervenções (que podem acarretar em desfechos não favoráveis)⁸. Isso explica os percentuais tão próximos (e baixos!) de desfechos negativos observados nos partos de risco habitual, pois significa dizer que não é que um dos ambientes seja mais perigoso/seguro que o outro, mas sim que cada um dos ambientes de parto possíveis (em casa ou no hospital) possui riscos que são inerentes apenas a ele, e não ao outro ambiente. Por isso, a orientação é que cada mulher possa escolher parir onde se sentir mais segura, desde que, claro, tenha as condições de saúde adequadas para tal.

Referências

  1. Melania Amorim (2012). Indicações reais e fictícias de cesariana. Disponível em http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html
  2. Maíra Libertad, Mariane Menezes (2017). Parto domicilar e doulas – informações relevantes para a prática. Palestra organizada pelo Levatrice.
  3. Spinning Babies. Breech. Disponível em https://spinningbabies.com/learn-more/baby-positions/breech/
  4. Maíra Libertad (2018). Sobre desfechos negativos em parto pélvico domiciliar. Postagem no grupo do facebook “Cesárea? Não, obrigada!”, disponível em https://www.facebook.com/groups/cesareanao/permalink/1841394945873766/
  5. Maíra Libertad (2015). E na hora de escolher uma parteira? Disponível em https://www.coletivodeparteiras.com/single-post/2015/02/19/E-na-hora-de-escolher-uma-parteira
  6. Kenneth C Johnson, Betty-Anne Daviss (2005). Outcomes of planned home births with certified professional midwives: large prospective study in North America. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC558373/
  7. Cheyney M, Bovbjerg M, Everson C, Gordon W, Hannibal D, Vedam S (2014). Outcomes of care for 16,924 planned home births in the United States: the Midwives Alliance of North America Statistics Project, 2004 to 2009. Resumo disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24479690
  8. Ank de Jonge, Jeanette A J M Mesman, Judith Manniën, Joost J Zwart, Jeroen van Dillen, Jos van Roosmalen (2013). Severe adverse maternal outcomes among low risk women with planned home versus hospital births in the Netherlands: nationwide cohort study. Disponível em http://www.bmj.com/content/346/bmj.f3263
  9. de Jonge A, van der Goes BY, Ravelli AC, Amelink-Verburg MP, Mol BW, Nijhuis JG, Bennebroek Gravenhorst J, Buitendijk SE (2009). Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births. Resumo disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19624439
  10. Melania Amorim (2014). Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências.
    Disponível em http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-parto-domiciliar.html